terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Conto da Princesa Kaguya



Nome Original: Kaguyahime no monogatari
Ano: 2013
Diretor: Isao Takahata
País: Japão
Vozes: Aki Asakura, Yukiji Asaoka e Takeo Chii
Prêmios: Melhor Animação no Asia Pacific Screen Awards.
O Conto da Princesa Kaguya (2013) on IMDb



Imagine você, um simples cortador de bambu, é chamado pro uma luz bela e incandescente dentro de uma árvore dessas. Ao se aproximar surge um bebê minúsculo, belíssimo, uma verdadeira princesa. Espanta. Comove. De onde veio? De outro mundo? Leva para casa como a filha que nunca teve com sua esposa. Dia pós dia ela crescia de forma exponencial, andando, falando e cantando e logo se enturmou com as crianças da montanha onde vivia. Não tinha um nome, apenas era uma criança feliz, sem compromissos, sem problemas e sem preocupações. Era o que uma criança deve ser: criança. E não era apenas feliz, fez uma família ainda mais feliz, com pouco, mas sempre feliz. Num mesmo bambuzal onde a pequena dádiva o cortador encontrou uma quantidade absurda de ouro. O que os céus querem? É mesmo uma princesa? O que precisa uma princesa? Um príncipe, um palácio, uma vida confinada com ouro e diamantes? Seu pai acha que os sinais devem leva-los à capital, promover a pequena criança à princesa, pronta para casar-se com um figurão da sociedade. Claro, com muita pompa e apreço, e de quebra com um bom cargo. Mas ninguém queria saber o que a pequena menina queria.

Num mundo onde o individualismo impera, “O Conto da Princesa Kaguya”, inspirado no conto popular japonês “O corte do bambu”, é mais atual do que nunca. Mesmo sem definição de época e com todo simbolismo e fantasia, o filme nos remete à realidade vivida ainda hoje. Não há vida na aparência. Não há felicidade na falta de liberdade. Não há perdão para o egoísmo. Não há vida possível sem conversa, afeto, aceitação. Kaguya é uma dádiva para a família, não é um trampolim para a riqueza. E os céus punem. Tudo que vem fácil, vai fácil. A vida na pacata montanha era tudo que Kaguya queria. Não há palácio, riqueza, dinheiro ou presente que a faça esquecer os seus anos mais belos que vivia. Ela vivia. O machismo que compra com presentes, a aparência da riqueza que ofusca a podridão, a busca do poder sem ver quem está abaixo, esquecer seu passado. Sobreviver aqui não é viver. Voltar à lua é a única saída. A Terra não é seu lugar. “O Conto da Princesa Kaguya” é uma dádiva. Mesmo não tendo gostado da cena final (nada que atrapalhe todo o filme) ela deve tirar algumas lágrimas do expectador. Kaguya vai, mas ficam seus ensinamentos.


Não é de hoje que as animações do Studio Ghibli são aclamadas como as melhores existentes do mercado. Esse mercado faz com o passar do tempo deixaram de ser mágicas e se tornaram produtos em busca de expectadores, produtos de marketing e massificação. Desenhos a lápis, sem 3D, sem cores maçantes e explosivas não atraem mais o público em geral ou mesmo às crianças já acostumadas com desenhos redondos, muito bem acabados digitalmente e chamativos. O costume e o consumismo, aliados à americanização da nossa cultura, faz com que obras primas como “O Conto da Princesa Kaguya” seja lançado (se for lançado) em um circuito mínimo, sem público que o torne viável financeiramente e que o deixarão numa prateleira escondida na locadora (ainda existem?) ou mesmo vá para as lojas de filmes num lote mínimo e sumirão fisicamente, mas nunca deixarão a lembrança de quem o viu. É por essas e outras que o Studio Ghibli vez por outra anuncia seu possível fechamento. Hayao já disse ter parado de fazer cinema. Isao ainda não. Esperamos que ele não pare, para o bem de um público fiel, interessado e que tenta ampliar o alcance de obras maravilhosas feitas de forma artesanal. De forma que toque nossos corações. “Kaguya...” é maravilhoso esteticamente e sua fantasia é absolutamente inebriante.

Vitor Stefano
Sessões

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