sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Nome Original: Medianeras
Diretor: Gustavo Taretto
Ano: 2011
País: Argentina, Espanha e Alemanha.
Elenco: Pilar López de Ayala, Javier Drolas, Inés Efron e Rafael Ferro
Prêmios: Melhor Filme Estrangeiro, Prêmio do Juri Popular e Melhor Diretor no Festival de Gramado.
Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011) on IMDb

Já que o amor simplesmente acontece. Mais conveniente é comentar o que sustenta as medianeras.



Arquitetura. Como a interpretamos para quem ela é feita e quais são os seus processos. Consciente ou inconscientemente criamos relações com este amontoado de instalações que vice-versa nos cerca, que nos protege, que nos oprime, que nos cabe, que nos comporta, que nos reflete, que nos espacializa e especializa, que nos adapta.

Qual é o recheio deste amontoado de tijolos empilhados, piche, fiação, madeiras e concreto armado? O recheio que está dentro e fora de tudo isso é a vida humana. A vida humana que está acontecendo até no segundo em que o clique da máquina registra o cartão postal. A vida humana que está acontecendo e é fortemente sentida pelos melancólicos. A vida humana que está acontecendo e é imitada pela arte. A vida humana que aconteceu há dezessete segundos e está acontecendo agora e que acontecerá daqui a dezessete segundos.

- Quem está nesta foto? Você?
- Não.
- Então quem é?
- É o Obelisco.
- Ah! É verdade. Só achei parecido.

O acontecimento vida humana inventou-se de viver neste troço chamado cidade. Cidade que se infutura e permanece no passado dentro do mesmo quadro. Que se enfeita e se enfeia dentro do mesmo quadro. Postada, comentada e fria. A matéria morta que parece imitar o ser humano. Parece que nos imita simplesmente porque nos reflete. Uma fotografia de todos em volta de mesa de aniversário de oito anos não armazena o que são aquelas almas, ou o que se passava por elas naquele instante do flash, como os postais não revelam o que de fato é uma cidade. É como se a cidade também conseguisse fingir um sorriso amarelo. Xis. Facebook.


Como a cidade pulsa. E embora muitas vezes nem se queira dar por isso, os outros seres que habitam dentro dela pulsam, riem, sentem e sofrem como eu.

Imaginamos e não imaginamos, construímos e somos construídos. “Tá vendo aquele edifício, moço, ajudei a levantar...”


Leandro Antonio
Sessões

3 comentários:

  1. Agradeço pela oportunidade de assistir este filme no cinema. Pode ter certeza que é um dos melhores vistos nesse ano. É um longa cheio de referências e um diálogos ótimos que transitam entre o solitário drama e um maravilhoso humor sarcástico. Quem não viu, vai correndo porque tem algumas salas em exibição!
    Valeu @sessoes!

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  2. Uma obra de arte. A realidade de tantos em personagens que parecem conversar conosco durante todo o filme. Um diálogo firme e sincero. Uma realidade do isolamento que as inúmeras possibilidades de conexão nos proporciona nos dias atuais. É a visão de uma cidade sob ângulos completamente diferentes. Reflexão forte e provocativa.

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  3. "Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita, é uma cidade superpovoada em um país deserto, uma cidade em que se erguem milhares e milhares e milhares e milhares de edifícios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, existe um muito baixo, ao lado de um racionalista, um irracional, ao lado de um de estilo francês há outro sem estilo algum. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas.

    Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram uma total falta de planejamento. Exatamente igual à nossa vida, vamos vivendo sem ter a mínima idéia de como queremos ser. Vivemos como se estivéssemos de passagem por Buenos Aires. Somos os inventores da cultura do inquilino. Os edifícios são cada vez menores, para dar lugar a novos edifícios, menores ainda. Os apartamentos se dividem em ambientes, e vão desde os excepcionais 5 ambientes com varanda, sala de jogos, dependência de empregados, depósito, até a quitinete, ou caixa de sapatos.

    Os edifícios, como quase todas as coisas pensadas pelo homem são feitos para nos diferenciar uns dos outros. Existe uma fachada frontal e posterior, e os pavimentos baixos e os altos. Os privilegiados são identificados com a letra A, excepcionalmente a B, quanto mais progride o alfabeto menos categoria tem o apartamento. As vistas e a luminosidade são promessas que raramente condizem com a realidade. O que se pode esperar de uma cidade que vira as costas para o seu Rio?

    Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais de cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a abulia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, exceto o suicídio, eu padeço de todos. "

    Todos os edifícios, absolutamente todos, possuem uma face inútil, imprestável, que não é nem a fachada frontal e nem a posterior, é a “medianera”. Superfícies enormes, que nos dividem e nos lembram do passar do tempo, a poluição e a sujeira da cidade. As medineras mostram nosso estado mais miserável, refletem a inconstância, as rachaduras, as soluções temporárias. O lixo que escondemos sob o tapete, pensamos nelas excepcionalmente, quando, violadas pelos intempéries do tempo, deixam infiltrar suas reivindicações.

    As medianeras se tornaram mais um meio publicitário, que salvo raras exceções conseguiu embelezar-lhes. Geralmente, são propagandas duvidosas de supermercados ou fast food, anúncios de loteria que prometem de muito à quase nada, etc etc etc. Apesar de atualmente nos recordar da terrível crise que nos deixou desempregados. Os condicionadores de ar são erupções irregulares das quais padecem as medianeras, graças à antiguidade dos edifícios que não comtemplaram sistemas de refrigeração adequados para uma cidade cada vez mais quente.

    Contra toda a opressão que significa viver em caixas de sapatos, existe uma saída, uma fuga, ilegal, como todas as fugas. Em clara contravenção ao código de planejamento urbano, abrem-se minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos."

    Só isso já vale e o filme... Excelente!

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