quinta-feira, 5 de maio de 2011

Entrevista com o Diretor Bruno Veiga Neto

Quantas histórias e acordes existem, separam ou juntam os estilos? Jazz e samba, dois gêneros de pegada, de tato, de ritmo. "Do Jazz ao Samba" é o filme do diretor Bruno Veiga Neto, que nos cedeu gentilmente esta entrevista que apesar dos tons descontraídos que o jazz e o samba podem carregar, traz um assunto que é urgente no meio cinematográfico e não é de hoje. Confira, comente, colabore.


Sessões: Conte-nos um pouco sobre o projeto “Do jazz ao samba”.
Bruno Veiga Neto: O filme “Do Jazz ao Samba” não será somente um filme sobre a relação entre esses dois gêneros musicais, mas uma homenagem ao jazz e ao samba, que tanto contribuíram para a música que temos hoje, e aos amantes da boa música que irão encontrar nesse filme momentos memoráveis com grandes artistas brasileiros e internacionais. O documentário “Do Jazz ao Samba” irá colocar a música brasileira no lugar que merece, nivelado com os grandes gêneros musicais do planeta.
Eu não era um amante do Jazz, me tornei depois que comecei a produzir esse documentário. É impressionante começar a entender como esse gênero influenciou não só a Bossa Nova, mas a maioria dos gêneros musicais que se vê hoje inclusive no “mainstream”.
Não é de hoje que a música brasileira é venerada no exterior. Desde o advento do “Orfeu Negro”, filme que em 1960 ganhou entre outros prêmios o Oscar, que o samba misturado com a harmonia do jazz conquistou o mundo. Trazido para Nova Iorque por figuras públicas do jazz como Stan Getz e Charlie Byrd, o ritmo foi empacotado e distribuído mundo a fora como a nova sensação do momento, posteriormente gravada até por Elvis Presley e Frank Sinatra, as duas figuras mais poderosas do showbiz daquela época.

Aqui pelo Brasil artistas da “Nova Bossa” como Roberto Menescal, Carlos Lyra e Nara Leão seguiam fazendo sua música sem muito conhecimento do que estava acontecendo lá fora. Menescal conta em sua entrevista que quando chegou a Nova Iorque, deu de cara com grandes nomes do Jazz, como Gerry Mulligan, Canobal Adams, entre outros. Feliz com a “coincidência”, foi descobrir que todos estavam à sua espera, pois a versão instrumental de “Desafinado” já havia estourado por lá e todos queriam conhecer os autores desse novo ritmo, que fascinou os músicos desacostumados com tamanha “malemolência”.

O filme “Do Jazz ao Samba” vai mostrar esse processo de “exportação” da música brasileira desde Carmem Miranda, passando por Ari Barroso, Milton Nascimento, Ivan Lins, Chico Buarque até os dias de hoje, onde a música eletrônica, misturada com os clássicos do samba, lotam as pistas de dança na Europa e em todo planeta.

Nomes como Ivan Lins, Elza Soares, Marcos Valle, Diogo Nogueira, Haroldo Costa, Léo Gandelman, Tárik de Souza e Roberto Menescal já deram seus depoimentos. Também foram entrevistados artistas da nova geração, como Moyseis Marques, que participou do ressurgimento da Lapa como pólo cultural do Brasil, Marcel Powell, filho de Baden Powell e Mariana de Moraes, neta do grande Vinícius de Moraes.

O filme contará também com músicos internacionais como Will.I.Am, integrante do grupo Black Eye Peas, Jay Kay, do Jamiroquai e a cantora Norah Jones, além de outros artistas e músicos que foram influenciados e são declaradamente apaixonados pela música brasileira.

Músicos como Mike Ryan, completamente apaixonado pelo “Samba Jazz” e pelo jeito brasileiro de ser. Mike é trompetista, etnomusicólogo e compositor de samba/jazz/fusion desde o início da década de 70, já tendo tocado na Austrália, África do Sul e Brasil, onde mora há 15 anos. Aqui sua paixão virou negócio. Mike abriu uma casa de jazz na Lapa, o TriBoz, onde recebe artistas brasileiros e estrangeiros toda semana.
Ele ainda é autor do livro "SALF: Samba Brasil World Music", editado por Almir Chediak, trabalho muito conceituado sobre os ritmos e estilos que foram influenciados pelo samba, como o samba-jazz, o samba-funk e o samba-reggae.

S: A forma de captar recursos não é usual para produções artísticas. Quais os caminhos e as pedras que levaram a entender como sendo a "captação popular" uma forma de viabilizar o projeto?
BVN: O filme, assim como outros filmes do cinema brasileiro, sofre com a falta de patrocínio. Eu estou investindo do meu bolso desde o início das filmagens, mas cheguei num ponto onde preciso de verba para continuar. O processo de edição, finalização, mixagem e masterização é um processo caro. Fora os custos de aquisição de direitos para utilização dos fonogramas e material de arquivo no filme. Dependendo do que seja necessário, fica inviável sem apoio financeiro. Já recebemos propostas de exibição na Holanda, China, Canadá, Estados Unidos e Índia mesmo antes do filme ficar pronto, somente pela divulgação do trailer provisório em inglês através da internet. Pediram que mandasse o filme quando ficar pronto para avaliação. Por isso estamos correndo!

Uma solução que encontrei foi o novo sistema de financiamento já muito utilizado fora do Brasil chamado “Crowd Funding”, ou financiamento coletivo. Nesse sistema, amantes do samba, jazz e bossa nova poderão colaborar com qualquer quantia para que o filme fique pronto. São contribuições pelo cartão de crédito, com valores que correspondem a prêmios como o nome nos créditos finais como agradecimento especial, vagas em oficinas de cinema e até a aparição no filme como figurante e participação na equipe de filmagens e na edição.

Sites como Kickstarter e RocketHub já movimentam milhares de dólares em projetos de filmes, produção de Cd’s e até shows musicais.

Um dos maiores exemplos de financiamento coletivo é o do filme "Blue like jazz", que tinha como meta arrecadar US$ 125 mil e recebeu US$ 346 mil de 4.495 americanos. As filmagens já começaram e o filme deve ser lançado ainda esse ano.

Para quem quiser participar, o documentário “Do Jazz ao Samba” está em parceria com o site Incentivador.com

S: Samba + Jazz. De onde veio a inspiração?
BVN: Eu estava em Nova Yorque para cobrir o Festival de Cinema Brasileiro em Nova Iorque para a Inffinito, empresa realizadora, e uma amiga minha fotógrafa chamada Mari Vianna, me convidou para visitar um Pub de Jazz no Harlem, um dos únicos remanescentes que faz jazz para o povo, diferente de outros clubes que se estruturaram para receber turistas. Lá comecei rodando um curta metragem, mas a medida que fui entrevistando os jazzistas percebi que todos, quando sabiam que eu era brasileiro, falavam da música brasileira como se estivessem falando de algo divino. Teve um dos músicos que até aprendeu a falar protuguês para entender as músicas da Bossa Nova, em especial Tom Jobim. Foi isso que me motivou a produzir um longa metragem sobre a influência da música brasileira no Jazz e seu reconhecimento no exterior, muitas vezes desconhecido pelo público brasileiro.

S: Como conseguiram fazer as entrevistas, sendo artistas internacionais tão difíceis para ter acesso?
BVN: Não foi uma tarefa fácil não. O que me ajudou foi o trailler provisório que montei, a partir do material filmado em NY. A partir dele fui conseguindo a credibilidade necessária para marcar as entrevistas, todos viam que era um projeto sério. A partir daí fui montando o blog e as coisas foram clareando. Hoje temos muitos artistas engajados no projeto, a receptividade do enfoque foi maravilhosa. Estamos nesse momento viabilizando um show com grandes nomes para interpretarem standarts de Jazz e Samba numa linda noite. Mas para isso dependemos de verba.

S: Agora um pouco sobre você. Qual é sua formação no cinema?
BVN: Eu já trabalho com audiovisual há mais de 15 anos, produzindo documentários e séries de tv para canais como Multishow, Canal Brasil, STV, etc. Destaque para a direção do programa de turismo cultural “Mastercard Destino Brasil”, que rodou mais de 200 locais do país mostrando suas riquezas naturais e culturais, sempre com foco no cinema. Também dirigi a série de musicais “Projeto Novo Canto” para a STV, programas musicais que apresentavam o melhor da nova safra de músicos sempre apadrinhados por grandes nomes da MPB. Zeca Pagodinho, Milton Nascimento, Elba Ramalho entre outros participaram desse projeto. O documentário “Do Jazz ao Samba” é a minha primeira experiência no cinema.

S: O que o motiva a fazer cinema e como você descobriu-se diretor?
BVN: Acho que o que me motive é o mesmo que motiva a grande maioria de cineastas. Eu gosto de contar histórias. Mas eu particularmente, adoro as histórias reais, por isso escolhi o documentário. E amo o Brasil. Acho que as manifestações culturais brasileiras são muitas vezes mais reconhecidas e valorizadas por pessoas de fora do Brasil. Por isso tenho como foco filmes que falam da cultura brasileira.

S: Como estreante em longas, qual a sensação de colocar em prática este projeto? E a expectativa da captação?
BVN: Eu na verdade estou muito feliz somente por ter começado! É muito difícil nesse país colocar em prática um projeto, muito nem saem do papel! E foi por isso que optei arregaçar as mangas e começar, pois acredito que depois que começa coisas vão acontecendo para te ajudar a concluir. Mas tem que começar. Com relação à captação, nós estamos testando uma nova maneira de se captar verba para projetos culturais. Não sei se conseguiremos fugir da coisa de aprovar o projeto nas leis de incentivo, entrar em editais, pois o “CrowdFunding” está apenas começando no Brasil. Mas acredito que em pouco tempo já poderemos ter esse mecanismo como um formato de financiamento paralelo as empresas privadas ou estatais, leis de incentivo e editais.

S: Tem outros projetos a serem realizados?
BVN: Sim, com certeza tenho muitos! Rs
Estou dirigindo além desse filme mais dois, que estão em andamento meio que em paralelo. Um sobre o Oswaldo Montenegro, em parceria com o diretor Jorge Brennand Jr. e outro sobre a relação de Canudos, sertão da Bahia, com as favelas do Rio de Janeiro.

S: Vendo no site da produtora BRC-1 vimos o projeto de cinema na escola. Como você vê a possibilidade de integrar a cinematografia com o conteúdo curricular? E como trazer o mundo de trás das câmeras para a realidade de jovens?
BVN: Esse é um projeto muito gratificante. Eu já há alguns anos levo o cinema para as escolas através de oficinas e exibições de filmes e com certeza o resultado é muito positivo. As crianças e jovens tem uma injeção de motivação, junto com aumento de auto-estima, aprendem a trabalhar em equipe e respeitar a hierarquia. Tudo isso além de aprender um ofício que pode os inserir no mercado de trabalho. O mercado audiovisual tem crescido muito, e cada vez mais abre espaço para técnicos como operadores de audio, caboman, iluminadores, assistente de cameras, etc. Eu tenho no meu círculo de amizades casos de profissionais como operadores de cameras e produtores que vieram de comunidades carentes, e hoje são profissionais respeitados.

Para participar e ajudar na finalização do filme “Do Jazz ao Samba” clique aqui. E entre aqui para acessar o blog do filme.

Sessões

2 comentários:

  1. Bruno Veiga nos proporcionou uma entrevista leve. Passou para mim uma simplicidade agradável. E concordo principalmente com a ideia de que para fazer é preciso começar. Trabalho e ideal quando andam juntos podem deixar uma sensação de que a vida tem claros sentidos e de que a paixão vale a pena. Hoje estou romântico, mas ainda atento e forte...

    Leandro Antonio
    Sessões

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  2. Um projeto inovador. Não, não estou falando sobre o documentário "Samba e Jazz", mas sim na forma como o diretor Bruno e sua equipe buscam investimento para que o longa seja finalizado. Sabemos que cinema é uma arte cara e precisa de investimento para sair do papel.


    Esse tipo de inventividade nos faz refletir sobre a necessidade de termos um cinema forte e rico. Não seria melhor numa sociedade com serviços básicos e apoio do governo? Tudo pode ser questionado, mas se é assim que o cinema vive, que continue vivendo, apesar de ainda pensar que seria muito mais interessante que apenas a iniciativa privada investisse nas artes e que o Governo apenas investisse no povo para ter acesso à cultura. Não adianta fazer cultura se o povo não tem condições de entender, de concentrar com uma barriga com fome.

    Bruno tem um projeto e espero que seja seguido, pois a busca independente de verba mostra que ele faz cinema porque ama e não para "roubar" o que o povo nem tem.

    Parabéns Bruno e Sessões!

    Vitor Stefano
    Sessões

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