segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mar Adentro

Nome original: Mar Adentro
Diretor: Alejandro Amenábar.
Ano: 2004.
País: Espanha.
Elenco: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas, Mabel Rivera.
Premios: Oscar, Globo de Ouro, David de Donatello e Independet Spirit Awards de Melhor Filme Estrangeiro, Grande Prêmio Especial do Júri de Veneza, 14 Prêmios Goya entre eles o de Melhor Filme, entre outros.
Mar Adentro (2004) on IMDb

Um pulo, a morte. Uma cabeça, sem corpo. Uma vida, no inferno. Um filme, para rir e chorar. Como o próprio Ramón dizia: "Quando não se pode fugir, aprende-se a chorar sorrindo". Amenábar me fez chorar sorrindo, mais de uma vez.

Incisivo como Don Corleone, libertário à la Alexander Supertramp, hilário tal qual Carlitos, corajoso e cabeça dura como Ale, seus sonhos dariam milhares de ideias a David Lynch e dançaria melhor que John Travolta. Um personagem complexo, conturbado, inteligente e determinado. Gracioso, charmoso e cativante. Não é o Superman, é Ramón Sampedro.

Amenábar, corajoso, fez de uma história pesada e densa uma poesia em forma de obra prima. Não há como estar indiferente a esta ode a vida e morte . O filme navega em águas quentes rumo a um mar tranquilo. Javier Bardem impecavelmente faz o controverso personagem com sua maquiagem irretocável, em seu melhor papel, em minha opinião. Todo elenco flutua entorno da personagem principal em seu quarto ou em seus sonhos.

Levanta-te e anda Ramón. Afaste essa cama para longe. Tome impulso. Corra! Voe! Vá ao encontro de seu amor maior, o mar. Uma história de amor. E esse amor cortou suas asas, matou seu corpo. Um amor tão grande que nunca mais verá ou tocará. E suas asas renascerão apenas para sonhar. Sonhar com um amor que acabou. Não existe mais. Agora há uma nova paixão, pela sua única certeza. A morte. Um namoro que durou muito. Cortejando mulheres, a traiu, mas nunca a abandonou. Marcaram essa aliança em 23/08/68 e em 13/01/98 virou casamento. Eterno como ele tanto queria. Um casamento clandestino, sem consentimento de sua família nem de nenhum juiz. Tudo só foi possivel após um anjo, a amante do 'porto' de Boiro os uniu, amando-o como ninguém amou antes. E morreu, feliz para sempre. Navegue em paz Sampedro, em seu próprio mar, com o seu amor.

Muito obrigado. Por me emocionar!

Vitor Stefano
Sessões

9 comentários:

  1. De todo, não vejo o filme como sensacional, maravilhoso ou qualquer adjetivo que possa revelar algum deslumbramento de minha parte. Limito-me a reconhecer que as atuações, direção e argumento carregam inegável qualidade e beleza.

    Um instante marcante da história para mim é Rosa dedicando a música “Negra Sombra” ao seu amigo Ramón. A letra é uma conhecida poesia de Rosália de Castro, um dos principais nomes da literatura galega no século XIX. No pouco que eu tive oportunidade de ler de Rosalía (um breve contato quando tomava aulas de espanhol) deparei-me com nítidos traços de melancolia.

    Cando penso que te fuches,
    Negra sombra que me asombras,
    Ó pé dos meus cabezales
    Tornas facéndome mofa.
    Cando maxino que es ida,
    No mesmo sol te me amostras,
    I eres a estrela que brila,
    I eres o vento que zoa.

    Si cantan es ti que cantas;
    Si choran, es ti que choras,
    I es o marmurio do río,
    I es a noite i es a aurora.

    En todo estás e ti es todo,
    Pra min y en min mesma moras,
    Nin me dexarás ti nunca,
    Sombra que sempre me asombras


    Para Ramón Sampedro, a negra sombra era a vida!
    Em sua tetraplégica situação a melancolia não se via tão aparente, porém o sentimento era inerente “En todo estás e ti es todo, Pra min y en min mesma moras”.
    Sua particular dor já não cabia. Não coube no seu riso, não coube no mundo, não coube na jurisprudência e nem na vida. Coube em seus escritos, no amor e no respeito de uma amiga e na morte.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  2. Para os gregos antigos, enterrar o corpo da pessoa querida era um dever sagrado. Apenas os indignos não tinham esse direito: seus corpos eram deixados para os animais selvagens e para as aves de rapina. Em Antígona, tragédia de Sófocles, a personagem-título desafia as leis dos deuses – e a prepotência do rei Creonte – e enterra o corpo de seu irmão Polinice, acusado injustamente de traição à pátria. E paga com a própria vida por sua desobediência (ou melhor: por seu gesto de amor), que não tinha outra finalidade senão devolver dignidade ao corpo do morto. Pois bem... prepotência, gestos de amor, dignidade e morte também são os principais temas do filme espanhol Mar adentro. A abordagem, porém, é bastante diferente.

    Na tragédia grega, a prepotência é exercida pelo poder absoluto do rei; no filme espanhol, sobretudo pela indiferença dos juízes. Em Antígona, o amor é demonstrado por um gesto de desespero de uma irmã; em Mar adentro, pela paciência e dedicação de parentes e amigos. Na primeira, a dignidade de uma pessoa é recuperada quando ela é enterrada; no outro, quando a pessoa pode escolher se quer ou não viver. Em ambos, a morte é resultado do inconformismo, da revolta diante de situações indesejadas; mas no filme – ao contrário do que ocorre na tragédia de Sófocles – ela significa uma vontade, um direito a ser conquistado.

    Mar adentro não é, a rigor, um filme sobre a morte; é um filme sobre o direito à morte. Mais: sobre o direito ao suicídio. Mais ainda: sobre o direito ao livre-arbítrio. Mar adentro, camaradinha, é um filme sobre respeito ao próprio corpo, a si mesmo e aos que amamos.

    O filme conta a história do mecânico de barcos Ramón Sampedro (Javier Bardem), que ainda jovem ficou tetraplégico em razão de um maldito mergulho no mar. Há aproximadamente 30 anos em cima de uma cama, não agüenta mais viver nessa situação – porque entende que não é digno continuar vivendo assim e tem consciência do peso enorme que representa para seus familiares: o irmão mais velho, a cunhada e o sobrinho. Então... decide acabar com a própria vida. Como não consegue fazer quase nada sozinho, precisa encontrar alguém disposto a ajudá-lo a concretizar seu plano: tomar cianureto de potássio.

    Apesar de abordar assuntos interessantes, a maneira como o roteiro foi desenvolvido não me agradou. Achei a narrativa enfadonha, não via a hora de acabar aquela lengalenga. Bem... talvez o propósito do diretor tenha sido justamente expressar a monotonia, a chateação que era a vida de Ramón Sampedro. Mas sinceramente não acredito nisso. Penso que o diretor calculou mal, errou na dose, tornando a história cansativa, arrastada.

    Também não gostei da interpretação do ator principal. No entanto, isso não foi surpresa. Já assisti a outros filmes com ele e não gostei da sua atuação em nenhum deles. Mesmo em filmes tão distintos quanto Mar adentro, Vicky Cristina Barcelona e Onde os fracos não têm vez, ele sempre é o tal, o bom, o fodão. Detesto suas caras e bocas, seus silêncios constrangedores, seu jeitão de espanhol conquistador! Imagine esta cena de Mar adentro: numa casa com vista para o mar, Javier Bardem e uma mulher (apaixonadíssima por ele, claro!) admiram o pôr-do-sol. Eles conversam ternamente acerca da morte dele, da falta que ele certamente fará. De repente, Javier Bardem olha profundamente para ela, faz aquela cara de pidão e diz: “Estarei em seus sonhos, Rosa. Eu virei à noite até sua cama... e faremos amor.” Que pieguice danada, desgraçada, safada, nojenta!

    Tanto a fotografia como as músicas (compostas pelo diretor Alejandro Amenábar) são boas, cumprem seu papel. Entretanto, existe um detalhe que merece ser comentado: os recursos utilizados para a inserção das canções são pra lá de batidos: músicas surgindo de rádios ou de discos. Quanta originalidade, senhor diretor, quanta originalidade!

    Contudo, é preciso ser justo com o diretor, afinal de contas, outros dois detalhes merecem elogios rasgados: o poema (escrito pelo protagonista) que dá nome ao filme e especialmente a caracterização feita em Javier Bardem, alterando magistralmente sua aparência: de um jovem saudável a um velho inválido.

    Não gostei de Mar adentro, embora reconheça seus aspectos positivos – mencionados nos parágrafos anteriores, com destaque para o argumento. Agora... se ele merece duas horas da sua vida, não sei dizer, camaradinha. Exerça seu livre-arbítrio – tal como Antígona e Ramón Sampedro.

    Paulo Jacobina
    Sessões

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  3. Sobre suícidio assistido,a cura do incurável e a morte tratada em vida

    "O calor do sol tornava o clima ameno,sentiu o vento soprando em seu rosto,contemplou a branquidão das nuvens que deslizavam sob o céu azul e o mar que chamava baixinho:-Mais adentro,mais adentro!

    Saltou do alto das rochas que cercam a praia,flutuou e voou rasgando o ar em direção ao abismo azul cristalino,senão quando,o mar como que chamando a si suas águas
    deixou a mostra o seu leito sólido(...)"



    A situação a que Ramón Sampedro,o farrapo humano,ficou submetido após a tetraplegia traz a tona uma dicotomia antiga sobre o próprio sentido da vida e o filme dets forma acaba por abordar aspectos filosóficos.

    No caso,tudo gira em torno do prazer e sua negação o sofrimento.
    Epicuro,Diógenes,Cícero,Freud,Pascal de uma forma ou de outra estes acreditam que o sentido da vida seja a busca pelo prazer.Por outro lado as constituições,os Estados,a ONU,a igreja e os valores morais incutidos asseveram que vida é um bem inalienável,uma dádiva divina e que,portanto, o sofrimento e a dor não são argumentos palátaveis para dar cabo à ela,ademais, haveria até um elemento dignificante e engrandecedor em suportar a dor e o sofrimento bem na linha de um masoquismo moral.

    Embora,particulamente neste caso,eu não tenda à essa vertente acho importante os Estados e as constutuições nacionais estabelcerem cláusulas pétreas e proteção à vida em virtude das desgraças já perpetuadas por estes mesmos estados e constituições.Os estados em seus jogos de poder levam pessoas à guerra;a alemanha nazista tinha em sua constituição a legalização da "eutanásia"( do grego,morte sem dor,boa morte) para dizimar grupos não arianos e etc.Dessa forma é positivo que os homens se protejam de outros homens e de si mesmos.A igreja tenta projetar sua visão de mundo e fazer com que todos passem a segui-lá mas atualmente ela não passa de uma voz entre várias em virtude da pluralidade social com desdobramentos morais,reliosos e culturais.A despeito de sua grande influência na Espanha como mostra o filme.

    Em se tratando de direito a morrer eu parto do princípio moral de dignidade humana,ou seja,se o direito à vida é válido,tem força moral,então,em consequência lógica chego a conclusão que a definição do que é uma vida digna é uma decisão estritamente pessoal não cabendo à Estados,à igreja muito menos à juízes de direito julgar sobre a matéria.A vida é um direito indivudual não uma obrigação.Não sei porque o pedido de cometer suícidio assistido de Ramón causou tanto espanto nas autoridades uma vez não me parece que que a sua idéia seja contagiosa...

    Ramón,se estivesse vivo te dedicaria Caetano Veloso porque tanto eu como você concordamos que "Cada um sabe a dor e da delícia de ser o que é."

    Achei o ótimo filme por tratar o cinema como um meio de produção de debates sobre um tema polêmico que envolve diversos elementos,por ser a história da vida que bebeu a morte e por ter me trazido uma mixórdia de beleza e tristeza,graça e dificuldade e coragem e covardia.

    Fernando Moreira dos Santos
    Sessões

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  4. Mar adentro, produção espanhola que trata de um assunto tão polêmico, a eutanásia, não poderia deixar de provocar discussões tão divergentes nessas “Sessões de Cinema”. Mas independente de posições pró ou contra sobre o direito de decidir sobre o fim da própria vida, o que mais me chamou a atenção nesta obra foi a delicadeza de sua poesia e a figura adorável de Ramón Sampedro.
    E assim o filme se torna leve e forte, denso e delicado. Contraditório em sua maior parte, mas em nenhum momento deixando de ser importante como obra artística e como instrumento de mobilização da alma humana.
    Por ser obra ficcional e apresentar um Ramón Sampedro forte e extremamente lúcido, sagaz, figura adorável, com uma mente produtiva e cercado de bons amigos, seja uma maneira de contar a história de forma a valorizar a sua personalidade. Porém, na realidade, seu cotidiano muito provavelmente tenha sido penoso, triste, repetitivo, tedioso e deprimente. Senão, não haveria razão para uma busca tão intensa pela morte.
    Há também outro aspecto que me chamou muito a atenção na narrativa, e que me incomodou imensamente. Em alguns momentos do filme os amigos se reuniram em discussões acaloradas e vívidas, regadas a argumentações e fundamentações jurídicas afim de “conquistar” brechas legais ou audiências especiais na esperança de que o direito à morte fosse concedido ao seu amabilíssimo e querido amigo de uma hora para outra por um juiz qualquer. Achei isso muito mórbido e também contraditório.
    Porém, o que mais vale observar é que o filme trata mesmo é de vida, não de morte. Ramón Sampedro queria mesmo era viver. Teria sido um bom amante, era galanteador e, afinal, provocou amores, mesmo tendo apenas a capacidade de movimento do pescoço. Ele seria um atleta, pois gostava de nadar, de mergulhar, e foi por esta atividade que teve o acidente que o paralisou para o resto da vida. Ramón foi um poeta, pois escrevia seus belos poemas. Tinha alma de artista e, por isso, poderia também ser músico, pintor ou ator. Foi um viajante entusiasmado por conhecer culturas, lugares e pessoas...
    Penso que Ramón quis morrer porque sua necessidade de vida não cabia em si.

    Carlos Nascimento
    Sessões

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  5. Seco

    O primeiro é meu sobrinho, ou ‘meus’ sobrinhos, ou meu filho. São minhas sobras, minha âncora e meu transporte, na transição entre meu mundo e o belo mundo externo que não vejo há vinte e oito anos. Seu nome é Javier, nós o chamamos de Javi...
    O garoto é tapado como uma porta, tem pouca sensibilidade humana, mas é habilidoso com inventos, me ajuda a por em prática algumas idéias.
    Javier às vezes pensa...

    “Meu tio Ramón, como pode viver assim? Como pode querer morrer? Vive há vinte e oito anos assim, talvez esteja cansado, cansado desta sua ‘vida’. Assim irá, será, virá, mais um dia comum, pra mim, e para Ramón também. É companhia agradável, mas não entendo o quer quando me pergunta enervado o que estou aprendendo na escola, não gosto. Estou aprendendo o que me ensinam, ora. As pessoas vem aqui vê-lo, não entendo. O que será que procuram aqui?
    Vinte e oito anos...”

    Gosto do garoto, sentirei saudades.

    A segunda. A segunda é Rosa. Vem muitas vezes, às vezes chorando, partida. Tenta ser alegre, tenta provar o valor da vida! Decepções atrás de decepções. Era funcionária de uma fábrica, que faliu... Ela criou uma espécie de apego a mim, não desiste.
    Rosa pensa...

    “Talvez seja essa a redenção, este o momento. Agora! Não, não! Não vou despedaçar de novo. Ramón é um estranho, é teimoso, quer morrer... Por que morrer? Por que viver, então?
    ...
    Gosto de Ramón, preciso de Ramón, vou ajudá-lo. A viver? Ramón mata a mim também com suas palavras, com sua agonia, sinceridade. Com sua tristeza que sorri sempre que eu chego.
    Não, não sei...”

    Quando calo minha grande tristeza naqueles sorrisos meus, destruo, definho e me debato, sem nenhuma lágrima, sem nenhum som, seco, sujo. Triste! São todos eufemistas! São todos hipócritas! Este lastimável estado é o que sobra de toda liberdade que conquistei, de tudo que conheci. Viajar pelo mundo, se perder. Agora só em pensamento, só assim...
    Quem dera tivesse rodas pra brilhar em outra espanha.
    Quem dera o cheiro fosse palpável, tocável.
    Quem dera o passado novamente.
    Quem dera a morte no dia de minha morte.

    Alguns passos em direção a pia, afogo, deslizo, entrego...
    Tudo que quero, almejo, espero, é a morte...
    Que me trará liberdade, que me trará a vida.


    Mateus Moisés
    Sessões

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  6. Eu tinha certeza de que o post sobre este filme seria seu. Aliás... só o assisti por forte recomendação sua. E, realmente, é muito bom. Trata de um assunto delicado - o direito de morrer - com maestria. Excelente para quem, como eu, acredita no direito absoluto de escolha entre estar vivo ou morto.

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  7. Mar Adentro é, para mim, uma obra de arte, pela sensibilidade, pela aridez do discurso, pela beleza da poesia, pela belíssima trilha sonora, pelo duro, agridoce e charmoso Ramon Sanpedro interpretado por Barden, pela poesia que dá início aos títulos, no final, etc, etc, etc...

    Está entre meus preferidos e ele sempre se traduz, à mim, como um chamado à vida, apesar de ser um filme sobre o direito de escolher entre a vida e a morte.

    O livro, Cartas do Inferno, é bem menos charmoso... Menos agradável.

    Mas o filme, uma obra prima... Ainda que só pra mim...

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  8. eu dormi o filme inteiro. todas as vezes que tentei ver.
    mas acredito que seja bom. quem sabe um dia eu tome um guarapower, assista e diga que você tinha razão.
    ;)

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  9. Mar Adentro... já assisti umas 03 vezes... lindo demais, ja chorei assistindo este filme, q ator ótimo, q cenas lindas, q história emocionante! Recomendo sempre! Mto bommm!

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