quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sessões Brasil: Superoutro

Nome original: Superoutro
Diretor: Edgar Navarro
Ano: 1989
Elenco: Bertrand Duarte e Nilda Spencer
Prêmios: Melhor Super-herói Brasileiro por Fernando Moreira dos Santos, Melhor Média Metragem, Direção e Prêmio Especial do Juri do Festival de Gramado 89.
SuperOutro (1989) on IMDb


Esta semana passando os olhos pelo jornal vi a notícia que o filme homem aranha 4 já ocupa o pódio nacional das estreias do mês.O fato despertou em mim a curiosidade de encontrar um super herói no cinema brasileiro.Qual não foi minha felicidade  e surpresa ao me deparar com o anárquico,tropicalista,raulseixista, ocultista,masoquista,egoísta e  leninista marxista Superoutro.
Enquanto procurava um herói imediatamente me vieram à mente lembranças de  Macunaíma e Capital Nascimento, mas vi que o poder mesmo estava no escatológico, desnutrido e insano Superoutro  daí busquei me aprofundar nesse personagem mitológico nacional e acabei descobrindo algumas coisas sobre ele e,por conseguinte,sobre todos nós.

Superoutro se transforma em super-herói depois de ser atropelado por uma moto numa rua escura em direção à qual ele corre por ter pensado ser a luz a vinda do anjo Gabriel. Como qualquer super-herói seu fim é salvar o mundo de uma ameaça extrema, mas contrariamente aos seus parceiros tradicionais ele se insurge contra um vilão que não se assemelha aos de hollywood.Seus inimigos são a Sra.Miséria e a facção do Descaso e da Desigualdade.
De qualquer modo, é desse ambiente malévolo,injusto e marginal que se lança Superoutro,isto é, o "outro" como todos sabemos habita as profundezas de nossos inconscientes e, por vezes, e em alguns casos, ele escapa do limbo e se implanta na realidade.Esse é o seu superpoder o de na loucura de sua situação denunciar, escrachar e ridicularizar o público diferentemente do que fazem os heróis do bem, aliás, sejamos sinceros, às favas o Bem.Respondamos hipocrisia com hipocrisia.
Superoutro é um esquizofrenico nascido para se livrar do ambiente extremamente desigual em que se insere. Ele, contudo o faz da forma mais caótica possível, neste sentido, Edgar Navarro foi muito feliz porque o filme conquista o interesse de espectador logo na primeira cena em que um louco grita de dentro da noite:
ACORDA HUMANIDADE!
Porque quando cotejo com os super heróis tradicionais vejo nosso herói como melhor? Por uma diversidade de fatos,por exemplo, porque ele rouba comida dos turistas, vê revista pornô, recita Castro Alves, dança Banda Mel, assombra transeunte, joga bosta no motorista parado no farol, rouba colar de católica, toca bronha assistindo o “rola entrando” do Silvio Santos, come oferta de macumba e ouve vozes, declara que vai voar em público e desperta a compaixão de uma crente e de um cara idêntico ao presidente Lula que grita abaixo à burguesia ao som do Hino da Internacional Comunista.
Contra tudo e todos, na sua realidade criada, Superoutro cumpre o seu dever patriótico bipolar esquizoide de voar e após decretar ABAIXO A GRAVIDADE se lança do elevador Lacerda na Bahia se torna a pomba da eternidade que,a propósito,não existe,ou seja morre ou não.O filme agrada grego e baianos porque tem dois finais.

Mas afinal de contas o que esse filme mostra?
Bem, em tudo tem subjetividade, mas eu acho que o filme tem um pé na antropofagia porque parodia despudoradamente a noção de heroísmo e, ao mesmo tempo, lida com uma questão muito grave que persiste e que pode ser compreendida como um contexto de extremas disparidades sociais, infelizmente, um pretérito-presente que se quer futuro.
Paralelamente o filme mistura o nacional e o universal seja na noção de Superhomem, seja nas relações que estabelece entre o interno e o externo unindo como se fosse um mosaico um todo com tudo,que reflete a nossa identidade em contraposição, mas também em contato com outras culturas já que há menções a Glauber e a Fellini, à Chitãozinho e Xororó e Fautso Fawcett, Caetano e Nino Rota, berimbau e opera, poesia com orgsmasmo e outos que tais miscigenantes que me parece só nós conseguimos desenvolver e aprimorar.
Finalmente, eu queria deixar registrado a qualidade artística de Bertrand Duarte que deu vida à essa personagem maravilhosa multifacetada cujos delírios lúcidos encantam,apesar de ininteligíveis,mas talvez por isso mesmo,faz com que eu ponha no rol de super-heróis nacionais,em primeiro lugar,o SUPEROUTRO.

"Auriverde pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e balança"

Fernando Moreira dos Santos
Sessões Brasil

Um comentário:

  1. Vale a pena também conferir o "Super Frustrado", próximo filme em cartaz de sua "Tela Morna" - http://www.youtube.com/watch?v=bV-KSHj05Yw . Desconhecia este herói tão completo. Valeu, F.M.

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