sexta-feira, 6 de julho de 2012

Sessões Brasil

Sessões Brasil é um espaço criado, dentro do sessões, para facilitar a vida dos seguidores  e melhor organizar os comentários sobre cinema.

Aqui estarão todos os filmes que comentarmos de cunho nacional, desde ficção até documentário, bem como curtas e eventuais outras produções audiovisuais. Nossa intenção com esse gesto é acompanhar, divulgar, criticar, discutir, discordar, analisar, aplaudir, repudiar, escrachar, escaldar e tudo o mais que vier á mente sobre o cinema auriverde.

O Povo Brasileiro





Eu sinceramente não sei se você já se perguntou sobre o que é ser brasileiro? Já se questionou sobre o que somos? Você já tentou prever qual será o impacto que nosso país terá daqui a 50 anos no mundo? Você já se viu ante uma cultura estrangeira e teve uma crise de identidade? Você está de acordo quando dizem que nosso povo é feliz e cordial, passivo com a corrupção e flexível com a ética e a coisa publica?

Eu já fiz várias dessas perguntas e encontro em mim respostas das mais variadas. Às vezes  sinto me um patriota; outras o um espelho de várias raças bem ao estilo um tanto liberal e idiota de um universalista cuja pátria é o mundo.

De qualquer forma sabe-se, que tentativas de explicação sobre o Brasil sempre existiram. Basta que nos lembremos dos nomes clássicos como Caio Prado Júnior, Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes entre outros, cada um buscando encontrar uma resposta para a pergunta que ainda ninguém respondeu: O que é o Brasil?

 

Dentro desse rol de estudiosos acho que uma das mais memoráveis abordagens é a de Darcy Ribeiro (1922-1997), que foi antropólogo, político, ensaísta, intelectual e um homem dos quais o país deve orgulhar-se de ter dado guarida (pós-anistia).


Esse senhor de óculos fundo de garrafa e trejeitos humildes produziu uma pérola de 435 páginas chamada o Povo Brasileiro na qual ele percorre as origens do nosso país, da nossa identidade e por extensão, de nós, brasileiros filhos do pau Brasil. Toda a produção da obra mor de Darcy Ribeiro está no documentário homônimo em que diversos especialistas tentam entender o Brasil em seus próprios termos, isto é, tentam esboçar uma explicação sobre o que somos.


O documentário, apesar de extenso, não deixa nada a desejar frente ao livro que lhe serviu de base, por se valer claro de recursos audiovisuais que um livro não comporta.

Nele são apresentadas nossas três matrizes fundamentais: a indígena, a negra e a portuguesa e como a partir disso engendramos - por meio de um relacionamento, ora apaixonado, ora violento - um ser novo: um ninguém nos dizeres de Darcy;e dessa “ningüendade” nasceu o povo brasileiro.




“Surgimos, nos dirá Chico Buarque lendo a obra de Darcy, da confluência, do entrechoque e do encadeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.”


O documentário é dividido em 10 partes cada uma explicando uma matriz cultural do Brasil desde o seu período de descobrimento até o país de hoje abordando os diversos “brasis” que coexistem dentro do Brasil: o Brasil crioulo, caboclo, sertanejo, caipira, gaucho, matuto e gringo.

Além de ser bastante didático é ilustrado por especialistas de diversas áreas que fundamentaram sua vida acadêmica nesse campo tão profícuo que mistura história, antropologia, economia, literatura e sociologia. A narrativa se desenvolve naturalmente sem rupturas como se o processo de formação do Brasil tivesse se dado a partir de continuidades, miscigenações e amalgamas várias tudo ao som da voz de Matheus Nachtergaele.



Apesar de se voltar às origens, o próprio Darcy Ribeiro no documentário tece considerações interessantes sobre os nossos possíveis futuros. E neste sentido ele me parece assaz entusiasta sem que com isso seu pensamento deixe de ser poético e positivamente utópico. Ele diz que Canadá e EUA,assim como a Austrália nada mais são do que povos transplantados da Europa,ao passo que o Brasil, juntamente com a América Latina seria uma civilização em construção permanente cuja identidade porque fundamentada na mestiçagem se faz mais plural, necessariamente mais aberta ao diálogo e consequentemente mais tolerante.

Eu acalento minhas dúvidas sobre o quilate da tolerância brasileira no que concerne à sociedade, mas aceito a ideia de que somos mestiços por definição, sendo indistinguível um português, um italiano ou um alemão que aqui tenha se adaptado.

Por fim, o documentário é maravilhoso e vale as longas horas dispensadas. Apesar de não responder todas as questões esclarece algumas coisas sobre um povo em eterna crise existencial - indício a se comprovar - de que  talvez assim o seja, por trazer em si mesmo, o mundo inteiro.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões Brasil

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