sexta-feira, 23 de março de 2012

Raul Seixas: O Início, o Fim e o Meio

Diretor: Walter Carvalho
Ano: 2012
País: Brasil
Raul - O Início, o Fim e o Meio (2012) on IMDb


Porque eu fui o primeiro, e já passou tanto janeiro...





Raul Seixas cantou essa verdade na música Eu também vou reclamar, lançada no clássico Há 10 mil Anos Atrás, em 1976. E taí uma bela afirmação – antes de qualquer coisa poder ser chamada de “rock nacional”, Raul com 12 anos já queria ser Elvis Presley na Bahia. Com as golas da camisa levantada e o cabelo imitando o ídolo, Raulzito era o estereótipo do rock: um estranho no ninho, não sabia muito bem o que fazer, como tocar, não queria estudar… Conseguiu encontrar uns malucos (quase) que nem ele e montou o Panthers, que depois se tornariam Raulzito e Seus Panteras, primeiro grande passo na trajetória desse lindo.
Seu caminho até a fama não foi óbvio: montou uma banda, foi produtor musical e só com 28 lançou seu primeiro CD, Krig-ha, Bandolo!, que já tinha de cara Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante, Al Capone e (pausa dramática) a minha música favorita dele:Ouro de Tolo.

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado…
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto “e daí?”
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado…
Esse começo da vida da vida de Raul Seixas, mais Caetano Veloso – de quem Raul não gostava nem um pouco, talvez uma inserção proposital do diretor – interpretando a canção acima, mais histórias de rir (e outras de chorar) e muitas outras músicas estão bem retratadas no documentário Raul Seixas: o início, o fim e o meio, que chega aos cinemas amanhã. Todo mundo vai falar da cena que mostra uma pequena mosca pousando no Paulo Coelho, mas eu não vou falar dessa parte só pra boicotar um pouco o cara, já que minha simpatia por ele não aumentou mesmo depois do doc. Quero falar de outros detalhes que você não pode deixar passar quando for ao cinema nesse fim de semana.
Repare nas escolhas inteligentes feitas nos cortes dos depoimentos. Em vários momentos, parece que os entrevistados conversam entre eles: ora concordando entre si, ora discordando e provocando cenas de humor involuntário. Repare na cena inicial, no sósia de Raul desfilando de triciclo (ou uma moto, agora não lembro), numa referência ao clássico Easy Rider, símbolo da contracultura que, por sua vez, era tão bem simbolizada por Raulzito.
Repare nas letras, até na dos hits. Composições autobiográficas, tristes, zombeteiras, tudo passa pelo catálogo dele. Raul manteve sua imagem longe de movimentos da época, como a Tropicalia, preferia falar para o povo através de palavras simples que juntavam um significado profundo às suas canções (vide Canto Para Minha Morte, que encerra a película). Mesmo com o apelo popular, sonhava com um lugar diferente, com um mundo mais livre e menos careta. Repare na dor e na tristeza das últimas apresentações de Raul, quando ele em muitos momentos parece desamparado, desaparecendo lentamente.
Não dá pra entender totalmente o fenômeno Raul, mas dá pra entender porque ele arrastou e ainda arrasta seguidores que nem estavam vivos quando ele já definhava. Dá até pra olhar com mais carinho da próxima vez que você ouvir um TOCA RAUL! Como ele mesmo disse: “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas quando se sonha junto, é realidade”. O sonho de Raul perdurou porque encontrou eco em muitos jovens que também não encontram um lugar nessa sociedade falida.
Nesse fim de semana, vá ao cinema. E chore, e dê risada, e preste, ainda que silenciosa, uma homenagem à Raul Seixas. Ele merece.

Uma contribuição de Chloé Pinheiro para o Sessões.

Um comentário:

  1. Em breve haverá Promoção do Filme no Sessões.
    Quer ver Raulzito no cinema?
    Vem com a gente.

    :)

    M.M.
    Sessões

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