terça-feira, 10 de novembro de 2009

Quero ser John Malcovich

Nome original: Being John Malcovich
Diretor: Spike Jonze
Ano de lançamento: 1999
País: Estados Unidos
Elenco: John Cusack, Cameron Diaz, Catherine Keener e John Malkovich
Prêmios: 3 indicações ao Oscar: melhor diretor, melhor roteiro original e melhor atriz coadjuvante (Catherine Keener) e 4 indicações ao Globo de Ouro: melhor filme em comédia / musical, melhor roteiro e melhor atriz coadjuvante (Catherine Keener e Cameron Diaz).
Quero Ser John Malkovich (1999) on IMDb


Bizarro e imprevisível. Bizarro e imprevisível. Quero ser John Malkovich, filme de 1999, consegue surpreender do começo ao final numa saraivada de situações cômicas e absurdas que fogem completamente do perfil das produções hollywoodianas. Brilhante direção de Spike Jonze, um talentoso diretor da nova geração do cinema, e roteiro de Charlie Kaufman, em seu primeiro trabalho para as telonas – é dele também o roteiro de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
Craig Schawartz (John Cusac, no melhor papel de sua vida) é um manipulador de marionetes muito talentoso, mas sua atividade não tem lhe dado reconhecimento. Casado com a horrível Lotte (Cameron Diaz - irreconhecível), decide buscar emprego numa empresa muito incomum. A começar pelo espaço físico. Instalada no setimo e ½ andar, as pessoas que ali trabalham precisa andar curvadas, já que o pé-direito está a meio andar de altura. O diálogo com a secretária e a entrevista com o dono da empresa já apontam o quão surreal será o restante do filme.
Schawartz flerta com uma colega de trabalho – Maxine (Catherine Keener), mas é rejeitado. Sua relação com sua esposa (Lotte) é cômoda, mas não lhe traz alegria. Deprimido, sua vida tem tudo para ser um fracasso. Um dia, por azar ou por sorte, descobre um portal atrás de um armário que dá acesso à mente de John Malkovich. Por 15 minutos a pessoa que entra neste portal vive todas as situações e sensações que o grande ator vive. Ao final da viagem, o intruso mental é atirado à beira de uma estrada. A partir daí, caros leitores, a maluquice está estabelecida.
Há boas atuações, como a de Cusak, mas nada espetacular, nem boa trilha sonora, muito menos uma atraente fotografia. Malkovich também não consegue ser grande interpretando a si mesmo, porém reconheço um certo exagero proposital na composição de um eu fictício. Ao ser endeusado por si, Malkovick se torna ridículo e cômico, e talvez seja exatamente esta a intenção. Spike Jonze não é um diretor conhecido, mas é extremamente bem sucedido nesta empreitada. O roteiro é sensacional, surreal e extremamente criativo.
Interessante notar a existência de uma análise psicanalítica no enredo ao abordar o questionamento da identidade. O protagonista é um ser angustiado que transfere para suas marionetes suas frustrações, promovendo soluções idealizadas. Ao manipulá-las, consegue ser aquilo que gostaria de ser. Ele pode então conquistar sua amada, ser mais atraente, sentir, dançar e expressar todo o sentimento recolhido. O simbolismo da quebra do espelho representa o desejo do rompimento com sua amarga realidade. Ao apoderar-se da mente de Malkovich, Craig utiliza-o como sua nova marionete.
Por outro lado, Maxine vê na descoberta uma oportunidade para explorá-la financeiramente, vendendo a U$ 200 uma passagem à mente de Malkovich. Afinal todos querem sentir a sensação de aprovação, beleza, riqueza e sexo que só a viagem de ser famoso poderia proporcionar.
Já Lotte descobre em Malkovich um homossexualismo reprimido. Ela entende e reconhece na sexualidade masculina seu desejo por mulheres. Ela e Craig se apaixonam por Maxine, mas só conseguem o êxito da conquista sendo Malkovich.
O que somos na realidade em oposição ao que desejamos ser. Realidade e fantasia indicando desejo. Ótima pedida para quem gosta de cinema complexo. Péssima idéia para quem gosta de linearidade.

Carlos Nascimento
Sessões

3 comentários:

  1. Titeteiro é tão incomum de se ver, mas manipuladores estão por todos os lados. Não são muitos espetáculos que vemos. Uma pena, pois é uma arte linda.

    Porém, a figura de manipulador de marionetes está mais em evidência do que parece. Quem nunca se sentiu "obrigado" a fazer algo que não queria? É a força que alguem inconsciente ou conscientemente influencia sua decisão e/ou opinião. Não que sempre seja para coisas ruins, porém o manipulador é mais comum do que parece.
    O que seria do presidente Lula se não tivesse o 'manipulador' Duda Mendonça no seu pé durante as eleições? Provavelmente nem chegaria à presidência ou à reeleição. O documentário do ótimo João Moreira Salles, Entreatos, mostra isso. É só perceber como ele mudou da sua primeira eleição (1989) onde foi derrotado para Collor até a última. A mudança não é apenas visual e sim de postura e atitude. E ele mudou! Não apenas por Duda, mas por muitos que o cercam. Talvez uma profissão que combine bem com manipulador é o propagandista. Mas nesse país existe muito mais jornalista propagandista do que jornalista imparcial.

    E se você encontrasse uma portinha que o levasse à mente de um ídolo ou de alguem? Quem seria? Lógico que John Malkovich é um maravilhoso ator e o filme é criativo ao extremo, porém não sei se o escolheria para entrar em sua mente. Claro, tudo dependeria de achar uma porta pequena no andar 7 e 1/2 de algum prédio histórico por aí. Vou começar a procurar.

    Talvez entrar na mente de algum dos maiores políticos, dos maiores extremistas religiosos ou apenas de alguém do cinema que eu goste, tipo Almodóvar, Lars Von Trier (deve ser um cabeça um tanto conturbada para se entrar), de David Lynch (outra mente obscura, um pouco menos que Trier) ou ainda de um dos Coen...

    Para quem é fã de Malcovich, há outros ótimos filmes que podem ver ele em suas melhores atuações, em minha opinião: O céu que nos protege de Bernardo Bertolucci, Queime Depois de Ler dos irmãos Coen, A Troca de Clint Eastwood e Morte do Caixeiro Viajante de Volker Schlöndorff, que foi feito para a TV que além da ótima atuação de Malkovich, tem Dustin Hoffman num papel belíssimo. Esse meu comentário, espero que consiga manipular sua mente e faça-os ver qualquer um dos filmes que recomendei, mesmo sem entrar na sua mente!

    Vitor Stefano
    Sessões

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  2. “Quero ser John Malkovich” é o que pode-se categorizar como um conto de fadas pós-moderno. Digo pós-moderno, porque tem em suas entrelinhas questões como fragmentação, desconstrução e construção de identidades, busca de afirmação do ser social e a caça interminável de sensações cada vez mais intensas.

    O protagonista “Schwartz” é o centro da representação de toda esta pós-modernidade, pois assume o fracasso em ser ele mesmo e suicida-se ao tornar-se outro. Schwartz abrindo mão de sua identidade, larga mão também de sua idéia de indivíduo, assina seu atestado de incapacidade social ou de inconsciência de que sua vivência e trajetória são únicas.

    Schwartz experimenta a oportunidade de encontrar no corpo de outro ser, a construção de uma identidade bem delineada, digna de confiança e prestígio. No corpo de John Malkovich consegue obter sucesso e dinheiro fazendo o que gosta, de ter a mulher desejada e ser admirado por multidões, ou seja, torna-se o modelo de ideal felicidade definido por nossa sociedade. Em sendo Malkovich, Schwartz é feliz aos olhos alheios e é somente diante do reconhecimento deste triunfo que seu gozo pessoal acontece.

    Figurativo, representativo e cheio de metáforas. Um filme para ver-se muitas vezes durante a vida.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  3. Bons comentários.

    Hoje o mundo virtual permite que se seja John Malkovich. E só pensar em quantos perfis de Twiters, Orkuts e o caralho que estão no ar e são falsos.

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