sábado, 14 de maio de 2016

Chung Kuo - China


Nome Original: Chung Kuo, Cina
Ano: 1972
Diretor: Michelangelo Antonioni
País:Itália
Elenco: Giuseppe Rinaldi
Sem Prêmio
Chung Kuo - Cina (1973) on IMDb


Chung Kuo, é um documentário de Michelangelo Antonioni produzido a pedido do grande timoneiro, líder supremo e luz eterna do universo Mao tsé Tung ao cineasta italiano em 1972.

A primeira coisa que me veio à cabeça durante todo o filme (3h 30 de duração divididas em 3 partes) é que o filme poderia ter sido mais um instrumento de propaganda do regime, mas do ponto de vista político ele é extremamente objetivo. Claro que, a imparcialidade plena só seria possível com a câmera desligada, mas Antonioni consegue mostrar as várias facetas deste grande país sem necessariamente fazer uma apologia infantil do sistema comunista chinês retratando – o como a panaceia para todos os males da humanidade como de vez em quando a gente vê por aí.

Aliás isso fica claro logo de saída quando percebemos que o protagonista principal não será os grandes filósofos de antes de Cristo, nem os imperadores das dinastias do século XIX, nem as grandes personalidades do século XX que lideraram as transformações radicais deste milenar país. A personagem principal deste documentário é o povo chinês.

Dividido em três partes, o documentário faz um apanhado fiel do cotidiano dos chineses em todas suas dimensões. Somos levados às indústrias de tecelagem de Pequim em que os trabalhadores ditam os rumos da produção, sem patrões, o que há são técnicos do partido organizando os processos. Também vemos os parques com idosos em seus movimentos vagarosos de tai chi chuan, as crianças na escola encenando apresentações artísticas cujas canções narram os feitos do grande líder. E sobra espaço até para uma cena surreal de uma chinesa sendo anestesiada com as finas agulhas da acupuntura antes de se iniciar a cesariana, durante a operação ela ri, come frutas, é escalpada e conversa com a equipe italiana.

De igual modo, se contrapondo à China urbana, conhecemos também às populações do extremo rural, a velha china camponesa e pobre em que muitos dos retratados jamais viram ou tiveram contato com o homem ocidental e isso fica claro nas imagens e na hostilidade/medo/timidez do povo às lentes da câmera. Notamos também uma velhinha caminhando com dificuldade pelas ruas de pedra em virtude, de na adolescência, ter sido vítima da tradição do “pé de lótus”. A terrível técnica de amarrar os pés das meninas a partir dos 6 anos de idade de modo a que eles não cresçam normalmente. A finalidade disso era agradar aos homens, na prática fortalecia o papel social de submissão da mulher ao homem.Neste ponto o documentário se aproxima de um experimento antropológico.


A China de 1972, é a China que ainda sente ou se ressente do peso da revolução cultural que instalou o caos na sociedade e a manteve sob o controle de Mao Tsé-Tung. Portanto, não se trata da China que o ocidente gosta de falar a respeito. Esta, é a china de Deng Xiao-Ping, que abraçou a globalização capitalista antes da queda do muro de Berlim em 1989. A China aqui retratada certamente sofreu transformações radicais o que por si só faz com que o documentário mereça figurar entre os melhores filmes sobre a China moderna. Este complexo, dispare, estranho e gigantesco território que serve de lar para 1,3 bilhão de pessoas às quais o resto da população mundial se vê inexoravelmente dia a dia mais interligada.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

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