terça-feira, 5 de julho de 2016

A Batalha de Argel


Nome Original: A batalha de Argel
Diretor: Gilles Pontecorvo
País: Itália e Argélia
Elenco: Brahim Hagiag, Saaid Yacef ; Jean Martin
Prêmios: Festival de Veneza
A Batalha de Argel (1966) on IMDb


Eu sempre tive apreço por filmes políticos um pouco por gostar de história, um pouco por gostar de cinema e um pouco por política mesmo.

A Batalha de Argel mostra a luta de um povo pela sua independência de uma potência externa. 
O contexto histórico é o do fim da II Guerra Mundial - e apogeu da Guerra Fria na década de 1960 - em que as potências europeias enfraquecidas pelo esforço de guerra passam a experimentar sublevações populares em suas colônias na África e na Ásia (independência de Angola, Moçambique, Argélia, Nigéria, África do Sul, bem como da Índia, da Indo china e etc.)

No caso, a Argélia era colonia francesa (lembrar que a conferência de Berlim em 1885 dividiu a África entre diversos estados europeus com exceção da Libéria e da Etiópia) desde o século XIX e tinha muitos franceses migrados para a região como forma de desafogar os problemas demográficos da França. Na Argélia os franceses recebiam o nome de pieds noires, ocupavam importantes cargos na administração da colônia, viviam em vilas "europeias" e tinham melhores condições de vida do que o povo argelino. Isso é história.

Para a produção do filme Gilles Pontecorvo, diretor italiano - por razões óbvias não se encontrou diretores franceses que se interessassem pelo roteiro - contou com atores amadores e profissionais embora essa diferença sequer seja notada aos olhos mais críticos. Todo o roteiro ganha ritmo através da condução sonora de Ennio Morricone que consegue através da música transmitir todas as emoções um processo histórico extremamente relevante. A escolha do preto e branco também merece atenção porque indica a escolha do diretor de enfatizar os contrastes em detrimentos das complementaridades. Isto é cinema.

O que faz desse filme um clássico e que o torna na primeira "assistida", apaixonante, não são os atores, não é a música de Morricone e  nem a história, mas o modo que o diretor escolheu para contar. Pontecorvo, não tomou partido. Ele não se coloca com sua lente ao lado dos franceses, nem dos argelinos; ele traz muito realisticamente a guerra como ela é e como ela foi. Em utopia e barbárie tem uma cena com Eduardo Galeano em que ele faz a melhor definição de história que eu já ouvi até hoje:

"A história é uma senhora lenta, caprichosa, às vezes louca, muito difícil, muito complicada, muito misteriosa. E que não nos dá nenhuma bola, que não nos obedece..."  


A história não tem nada de bonita nem de boazinha. A luta dos povos por autodeterminação e igualdade no mundo também não é uma luta bonita. Em A Batalha de Argel fica claro que todos os meios são usados para alcançar os fins dos dois lados. Tanto a Frente de Libertação Nacional (FLN) se vale de atentados terroristas contra civis desarmados quanto o exército francês se vale da tortura. "Quem quer os fins aceita os meios", dirá o coronel Mathieu chamado para acabar com o foco "terrorista" representado pela FLN. A determinação e o sucesso em se afastar de um esteriótipo fácil de maniqueísmo confere à esse filme a capacidade de ser uma obra atemporal e clássica. 
Isto é Política. 


Fernando Moreira dos Santos
Sessões

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