Diretor: Pedro Almodóvar / Niels Arden Oplev
Ano: 2011 / 2009
País: Espanha / Suécia, Dinamarca, Alemanha e Noruega
Elenco: Antonio Banderas e Elena Anaya / Michael Nyqvist e Noomi Rapace
Prêmios: Sem Prêmios / Bafta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa

Dentro de um calabouço de entranhas e neurônios estou após ver um filme que corre por veias que me lembro de ter passado, como um déjà vu, mas que insistem em dizer ser um caminho nunca antes visitado. Por "A Pele que Habito" entrei no cinema, vivi em angustias, pensamentos, intrigas, devaneios, desilusões, risos e tensão e assim que a luz ligou ouve-se: “É uma comédia, porra” com uma voz à la Peréio. Uma constatação obvia porra, ao sair dos filmes de Almodóvar. Há uma linha muito tênue entre o non sense, a comédia, o dramalhão e o suspense. Não, não é só uma comédia. É isso e muito mais, como sempre o é. Será que eu já não vi tudo isso só que estava em outra fantasia? Almodóvar pode ter trocado a pele de tudo e ter me enganado. E não quero descobrir, prefiro entrar no seu mundo e sentir cada poro dessa pele exalando o almadovarismo em cada frame.
uando não menos, vejo o nome “Os Homens que não amavam as mulheres”. Não há título mais provável para um filme do espanhol. Imagine as situações possíveis: a temática sexual, as cores quentes numa casa de campo em Olviedo, um homem forte, tatuado com um dragão nas costas, matador de mulheres inflamado por abusos de uma madrasta impiedosa na infância que age no ímpeto de vingar a sua honra perdida com um cabo de vassoura. Não há nenhum absurdo (não existem absurdos em filmes de Almodóvar) num enredo desses. Mas “Os Homens...” vem lá da fria Suécia e o diretor é o desconhecido (aos nossos olhos) Niels Arden Oplev. Não lotou cinemas no mundo todo por conta da estirpe do realizador, mas sim por conta do best-seller Millenium ser uma febre no mundo todo.
Se o jornalista comunista Blomkvist é obrigado a sair de cena por conta de falsa acusação, mas logo é contratado para investigar o sumiço há 36 anos de Harriet Vanger, integrante de uma família tradicional, bem sucedida e rígida. Uma hacker punk com ares de autismo, perturbada por abusos seguidos, se junta a essa busca, encontra pistas em lugares mais incomuns com ligações cada vez mais intensas. O suspense de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” está não apenas nas investigações das pistas, mas no comportamento constantemente dúbio das pessoas que estão na tela. Há muito mais do que um não amar pelas mulheres: a consciência é política até a última instância. Isso move o mundo, por mais obscuro que isso seja.
Como um corpo feito à mão, pedaço a pedaço, “A Pele que Habito” é uma colagem selecionada com os melhores fragmentos extraídos da excelente filmografia do diretor espanhol, do tema, passando pela indecisão de um gênero e pelo excelente retorno de Banderas-Almodóvar. Se “Abraços Partidos” foi uma quebra de estilo, uma mudança no perfil do diretor, agora estamos diante de um retorno retumbante a uma “nova” fase: o cinema do início da carreira com a fama e conhecimento técnico adquiridos ao longo do tempo. A fixação do cientista-médico pela paciente Vera é recheado de absurdismos tão eloquentes que caberiam em qualquer esquina. Depois de dedicar-se a uma mulher e filha suicidas, a vida ficou amarga e os motivos vão aos poucos se evidenciando diante da tela. Não estamos presos na história desde o começo, com aquele calor das cores e ternura, mas frame a frame vamos nos intrigando, entrando nas histórias, nas idas e vindas e na mente ora do Richard ora por Vera. E como retratar tão bem as visões masculinas e femininas. Apenas um ser assexuado ou hermafrodita o poderia fazer com conhecimento de causa. Almodóvar é hermafrodita mental, com a sutileza e a força em medidas exatas como em formula mágica. Consegue prender a qualquer gênero sem tomar parte e sem se esquecer de sua obrigação social, política. Almodóvar se reinventa e cada vez melhora. Gênio.
Vitor Stefano
Sessões
















