
Nome Original: Taxi Driver
Diretor: Martin Scorsese
Ano: 1976
País: EUA
Elenco:Robert De Niro, Cybill Shepherd, Jodie Foster, Albert Brooks.
Prêmios: Palma de Ouro em Cannes, Bafta de Melhor Música e de Melhor atriz coadjuvante para Jodie Foster.
Dos vários assuntos abordados em Taxi Driver, quase todos são espinhosos. Pela profundidade como são tratados, dois desses espinhos se sobressaem ── são mais afiados: machucam mais. Embora eles sejam muito divulgados nas artes, principalmente no cinema e no teatro, são pouco comentados (e admitidos) em nossa sociedade: a incapacidade de integração social e a solidão.
Ambos são terríveis. O segundo espinho é conseqüência do primeiro. E é também uma espécie de fuga, um afastamento, uma vontade de ficar só, um pedido de “deixem-me em paz”, um grito de “esqueçam-me!” Mas... e o primeiro? Por que ele existe? Por que o relacionamento humano é tão difícil e até mesmo insuportável para alguns indivíduos? Bem, tratarei disso daqui a pouco.
Em Taxi Driver, dirigido por Scorsese em 1976, conhecemos o cotidiano do taxista Travis, interpretado por Robert De Niro. Sabemos pouquíssimo a respeito do seu passado. É revelado apenas que ele não foi muito longe nos estudos, tem ficha limpa, serviu como fuzileiro naval e foi dispensado com honras. Quanto ao presente, igualmente poucas informações: está com 25 anos, é solteiro, mora sozinho e sofre de insônia.
Esta última, extremamente importante, pois foi sobretudo por causa dela que Travis decidiu procurar emprego à noite. Com pouco estudo, muita coragem e gosto pelo zanzar, decidiu ser motorista de táxi. E isso permitiu que ele observasse de perto, todos os dias, os mais variados tipos humanos. Nas palavras dele: “Todos os animais aparecem à noite: putas brancas e negras, doidos, bichas, traficantes, viciados”.
Travis não gosta de conviver com esses animais. E isso é um problema, visto que esses bichos noturnos são maioria na região onde ele trabalha: os bairros barra-pesada da cidade de Nova York.
Contudo, mesmo em lugares assim há os anjos: símbolos de pureza, ordem e beleza. E na cabeça do taxista vivido por De Niro, Betsy (Cybill Shepherd) reúne todas essas características ── é um anjo, uma exceção naquele pequeno mundo sujo, nojento, podre. Por isso, ele a quer. Ela é uma espécie de prêmio. E Travis não poupará esforços para merecê-lo.
O primeiro encontro dos dois é um dos trechos dos quais eu mais gosto, pela música envolvente e porque o roteirista Paul Schrader estava inspiradíssimo. As palavras escolhidas, o ritmo das frases, o humor leve ── tudo é uma delícia. Vejamos: “26 de maio, 16 horas. Levei Betsy ao Café Child, na Columbus Circle. Pedi café preto e torta de maçã com queijo cheddar. Uma boa escolha, acho. Betsy pediu café e salada de frutas. Ela poderia ter pedido o que quisesse”.
Travis até que não decepcionou no início. Depois, porém, revelou-se um baita grosseiro, socialmente doente, obsessivo, amalucado. Resultado: o anjo não quis mais saber dele, afastou-se.
O golpe foi duro. No entanto, o grosseiro, socialmente doente, obsessivo e amalucado motorista de táxi também é um forte. Levantou a cabeça. Seguiu em frente.
De repente, surge Iris (Jodie Foster), uma prostituta pré-adolescente que muda completamente a vida de Travis. Muda porque ele decide empenhar todas as suas forças na salvação dessa menina. Está disposto a aceitar os mais duros sofrimentos. Essa é a sua expiação. O pensamento é simples: Travis só alcançará a redenção pela dor. E salvando o corpo e a alma de Iris, ele igualmente se salva, livra-se da culpa que carrega pelo desprezo que sente por seu semelhante ── motivo principal da sua incapacidade de integração social.
No final do filme, o taxista amalucado mata o gigolô (Harvey Keitel) de Iris e outros crápulas. Livre, a menina volta a morar na casa dos seus pais. O caso é noticiado na TV. Travis torna-se herói nacional. Betsy aparece, e ele, com muita classe, a despreza. Fica a dica: os grosseiros também têm seus momentos de classe. E que classe!
Taxi Driver é um dos meus filmes favoritos. Porque é extremamente generoso com todos os envolvidos. Percebemos a contribuição de cada um deles. A bela fotografia de Scorsese; as atuações marcantes de Jodi Foster, de Cybill Shepherd, de Harvey Keitel e, especialmente, de Robert De Niro; o roteiro genial de Paul Schrader. E a música comovente e sensual de Bernard Herrmann.
Paulo Jacobina
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