terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Lila Diz...

Nome Original: Lila Dit ça
Diretor: Ziad Doueiri
Ano: 2004
País: França / Inglaterra
Elenco: Vahina Giocante / Mohammed Khouas / Karim Ben Haddou / Carmen Lebbos
Prêmios: Melhor Roteiro e Melhor Ator – Festival Internacional de Gijón




Pela primeira vez na vida, Chimo tinha “uma coisa que era outra coisa”, um desmanche, um deslize em sua enfadonha rotina no bairro. Com destreza e sensibilidade o diretor lança ao público, através de posicionamentos de imagens e focos originais, a “estória” de envolvimento e sedução entre o garoto e a provocante Lila. Esta produção européia representa o choque entre culturas, o preconceito ocidental contra os árabes, o papel da informação no desenvolvimento sexual e, sobretudo, representa verdades inconvenientes ao tratar de imaturidade sexual e riscos da juventude. Lila encontrara alguém para compartilhar suas fantasias, alguém que a ouvia e desejava com imensa sede. A libido da menina extravasava nas frases com teor sexual explícito, aparentando uma personalidade absolutamente pervertida, quando na verdade revelaria sua curiosidade, insegurança e paixão.
Ao lado de “100 Escovadas Antes de Dormir” e “Beleza Americana”, este filme mostra os desejos reprimidos e extravasados de uma jovem garota sob um estilo muito singular. O resultado das combinações certeiras entre cores, palavras e sons é uma obra gostosa de assistir, forte e tranqüila, de pouca duração e despretensão.
No que tange à ‘sexo’, propriamente, nada de novo vem à tona, segue-se apenas a combinação da sutileza do idioma e das fantasias clássicas francesas e européias (com a presença de uma garota de saia numa bicicleta perambulando por ruas européias lembra-se da clássica produção “Monella, A Travessa”).
“Lila Dit ça” não quer ser revolucionário, não pretende entrar em discussões políticas ou sociais, não anseia por condecorações ou méritos, quer apenas ser assistido, como a personagem Lila que apenas quer ser ouvida.


A região portuária da cidade francesa de Marselha é palco para cores suaves e expressivas. As belas cenas com clima noir, o interior das construções que contrastam oriente e ocidente, as locações externas, sugerem intenções amenas, ingênuas.
O choque entre culturas se revela na escolha da bela Vahina Giocante (Lila), que encarna uma possível nova versão de Lolita, e do reservado Mohammed Khouas (Chimo), fazendo o papel de um descendeste de árabe com a pele cor de azeite (olive skin).
No bairro árabe nem todos se vestem como a maioria dos muçulmanos. É o caso da turma de Chimo que usa roupas ocidentais durante todo o tempo. As cores que Chimo e Lila usam realçam o ambiente em que se desenvolvem as cenas. Lila combina com tons suaves como rosa, branco e azul claro, realçando seus cabelos louros deslumbrantes, Chimo combina com tons neutros como verde escuro e marrom.


“Lila Dit ça” é uma adaptação franco-inglesa do diretor Ziad Doueiri, ex-assistente de câmera de Quentin Tarantino, para o romance de autoria desconhecida de mesmo nome. Conta a ‘estória’ de descoberta sexual de dois jovens de origens opostas. O garoto tem 19 anos, não trabalha e vive à custa da mãe. O pai abandonara-os para viver com uma francesa. No Bosque Sombreado, ou ‘Bosque das Antenas’ como ironiza Chimo, não há perspectivas, o bairro é rodeado de preconceitos e grupo de jovens em busca de ‘ocupação’. Uma menina francesa muda-se com a tia para o bairro causando deslumbramento no grupo de Chimo, que é o único a receber sua atenção. Ela envolve o garoto em um ‘jogo’ de sedução e provocação que o deixa confuso e curioso. Os ciúmes do melhor amigo do menino (Mouloud) fazem com que este passe a perseguir e questioná-lo sobre a garota, então, o desdém de Chimo para com as perguntas do amigo faz com que Mouloud se revolte e tome uma atitude extrema. Os amigos do garoto estupram Lila banalmente. A tia da menina, então, decide mudar-se para a Polônia, não deixando qualquer vestígio. O garoto, perturbado com os fatos, pretende uma reviravolta em sua vida, e, usando seus talentos para literatura escreve sua história com Lila e através dela é aceito numa escola especializada em Paris.
A ‘estória’ é escrita por Chimo em um clairfontaine roubado, onde palavra por palavra ele mostra que “Lila era tudo, Lila e o que ela dizia”. O filme abre com os pensamentos de Chimo que inicia seus escritos. Por meio de lapsos e lembranças o garoto vai contando como foram os momentos mágicos passados com uma garota que se apaixonou, foi correspondida, mas por contradições e enganos teve destino trágico.


Silêncio. Este é um filme silencioso, quieto. Poucos ruídos, pouco barulho. Canções instintivas e palpáveis passeiam nas palavras e nos movimentos que as frases, os personagens e os movimentos de câmeras revelam. Os sons brincam com o colorido e o suave, o desejo e a inocência, como na belíssima cena do passeio de bicicleta, onde a provocação e o lirismo se engajam em produzir um bem sucedido momento de paixão.
São músicas em geral cantadas em francês, sussurradas, doces. Poucos instrumentos musicais, muitos efeitos. O vai e vem da dinâmica sonora se harmoniza com os tons de voz dos “amantes” produzindo um clima de extra-sensibilidade, de êxtase prematuro.





Lila Diz...:

“... Está vendo meus olhos? São claros e azuis. Você daria tudo por eles...”

“Eu transava com cem caras. Sabe o mais engraçado, Chimo? Todos tinham seu rosto...”

“Quer ver minha xoxóta?”

“... A mulher é diferente. Ela acompanha o céu, as regras. Ela é um pequeno planeta...”

“Comecei a chupá-lo. De olhos fechados. Chupei aquela coisa dura, macia, redonda, inchada. O mundo para... o dia, a noite, as guerras, as estações.”

“Sou como uma Ferrari no meio de um lixão...”


Mateus Moisés
Sessões

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mar Adentro

Nome original: Mar Adentro
Diretor: Alejandro Amenábar.
Ano: 2004.
País: Espanha.
Elenco: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas, Mabel Rivera.
Premios: Oscar, Globo de Ouro, David de Donatello e Independet Spirit Awards de Melhor Filme Estrangeiro, Grande Prêmio Especial do Júri de Veneza, 14 Prêmios Goya entre eles o de Melhor Filme, entre outros.

Um pulo, a morte. Uma cabeça, sem corpo. Uma vida, no inferno. Um filme, para rir e chorar. Como o próprio Ramón dizia: "Quando não se pode fugir, aprende-se a chorar sorrindo". Amenábar me fez chorar sorrindo, mais de uma vez.

Incisivo como Don Corleone, libertário à la Alexander Supertramp, hilário tal qual Carlitos, corajoso e cabeça dura como Ale, seus sonhos dariam milhares de ideias a David Lynch e dançaria melhor que John Travolta. Um personagem complexo, conturbado, inteligente e determinado. Gracioso, charmoso e cativante. Não é o Superman, é Ramón Sampedro.

Amenábar, corajoso, fez de uma história pesada e densa uma poesia em forma de obra prima. Não há como estar indiferente a esta ode a vida e morte . O filme navega em águas quentes rumo a um mar tranquilo. Javier Bardem impecavelmente faz o controverso personagem com sua maquiagem irretocável, em seu melhor papel, em minha opinião. Todo elenco flutua entorno da personagem principal em seu quarto ou em seus sonhos.

Levanta-te e anda Ramón. Afaste essa cama para longe. Tome impulso. Corra! Voe! Vá ao encontro de seu amor maior, o mar. Uma história de amor. E esse amor cortou suas asas, matou seu corpo. Um amor tão grande que nunca mais verá ou tocará. E suas asas renascerão apenas para sonhar. Sonhar com um amor que acabou. Não existe mais. Agora há uma nova paixão, pela sua única certeza. A morte. Um namoro que durou muito. Cortejando mulheres, a traiu, mas nunca a abandonou. Marcaram essa aliança em 23/08/68 e em 13/01/98 virou casamento. Eterno como ele tanto queria. Um casamento clandestino, sem consentimento de sua família nem de nenhum juiz. Tudo só foi possivel após um anjo, a amante do 'porto' de Boiro os uniu, amando-o como ninguém amou antes. E morreu, feliz para sempre. Navegue em paz Sampedro, em seu próprio mar, com o seu amor.

Muito obrigado. Por me emocionar!

Vitor Stefano
Sessões
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